ESCRITÓRIO CONTÁBIL & TRIBUTÁRIO PENELA

O mito da inflação

07/08/2014 09:31

Sempre que aponto que a hiperinflação nos Estados Unidos prevista pelos suspeitos habituais nos últimos seis anos não se materializou, recebo uma série de comentários do tipo: sim, ocorreu, e simplesmente o governo mente sobre as estatísticas.

Uma resposta: as medições independentes, como o Índice do Bilhão de Preços, não mostram resultados muito diferentes do dado oficial. Mas aí apontam o preço mais alto de qualquer coisa como evidência de que temos muita inflação.

Não que eu pense que esses interlocutores podem ser demovidos, mas é importante perceber que os preços relativos sempre mudam, e que alguns inevitavelmente sobem mais que a média. Se você remontar ao início da Grande Recessão, os preços dos alimentos aumentaram mais que o índice de preços ao consumidor, mas os valores dos carros aumentaram mais lentamente (e as coisas tecnológicas ficaram muito mais baratas, é claro).

E o que dizer do Shadowstats, site que pretende fornecer medições reais de variáveis econômicas e afirma que a inflação é muito maior do que o governo admite? A assinatura custa 175 dólares, o mesmo preço de oito anos atrás.

James Pethokoukis, comentarista e blogueiro do Instituto Americano de Empresas, e Ramesh Ponnuru, colunista da Bloomberg, estão frustrados. Eles têm tentado converter os republicanos ao monetarismo de mercado, mas os intelectuais favoritos da direita continuam a recorrer a excentricidades sobre teorias conspiratórias da inflação. Três anos atrás, foi o professor de Harvard Niall Ferguson na Newsweek, ao citar o Shadowstats, uma fonte fraudulenta. Ferguson foi amplamente ridicularizado por conservadores moderados assim como por liberais... Mas lá vem Amity Shlaes, da National Review, com o mesmo argumento e baseado na mesma fonte.

A resposta é que a paranoia da inflação não é uma simples falta de compreensão que pode ser corrigida ao se indicarem as evidências. Está profundamente inserida na psique conservadora moderna. Segundo essa visão de mundo, a ação do governo deve, por definição, ter efeitos desastrosos. E qualquer coisa que os monetaristas do mercado tentem dizer, seus camaradas políticos continuarão a misturar política monetária com estímulo fiscal e o Obamacare. Então são sempre os anos 1970, se não Weimar, e, se os números disserem outra coisa, devem estar manipulados.

Assim, o monetarismo de mercado não vai a lugar nenhum, politicamente. Ele esteve conspicuamente ausente do livro de supostas novas ideias de Eric Cantor. E o próprio Cantor foi derrubado do Congresso por um randita (seguidor de Ayn Rand) baseado na fé (o que não faz sentido, mas o sentido também tem um conhecido viés liberal). Desculpem, rapazes, mas vocês não têm casa.
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A boa notícia sobre a Lei de Acesso à Saúde não deveria ser considerada discutível. As inscrições realmente estão acima da meta. Diversas pesquisas independentes mostram queda acentuada da população não segurada, o aumento dos custos dos tratamentos de saúde realmente desacelerou drasticamente, seja qual for a razão, e os novos segurados estão em geral satisfeitos com sua cobertura.

Se você quiser insistir que haverá grandes problemas futuros, está bem (por favor, explique), mas os fatos até agora são bastante bons.

Entretanto, o que vejo – e o que se vê quando se sugere que as coisas vão bem – é uma enxurrada não só de desacordo, mas de fúria. As pessoas ficam rubras de raiva, praticamente a ponto de incoerência, diante da sugestão de que Obama não é um desastre.

O que é isso? Em parte pode ser a “síndrome de perturbação de Obama”. Fiquei chocado com a correspondência que recebi depois de minha última coluna no The New York Times, na qual leitores me acusaram de fazer propaganda para o presidente Obama e me recusar a admitir que ele é um desastre, quando a coluna apenas citou o cara. O Obamacare foi um rótulo colocado na Lei de Acesso à Saúde por seus adversários, para amarrar o presidente ao desastre que viria. Agora eles estão decepcionados porque ele e sua reputação estão se saindo bem.

Em parte pode ser o ódio geral por qualquer tipo de programa que ajude os menos afortunados, especialmente se eles forem... você sabe, não brancos.

E em parte, desconfio, por existir agora um elemento de vergonha. Se a coisa realmente funciona, todo mundo que gritou que seria um desastre acaba por parecer muito idiota.
Às vezes a aparência não engana.

 

 

 

 


Texto confeccionado por: Paul Krugman

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